ESTUDOS SOBRE AS RUÍNAS DO CONVENTO DE SANTO AMARO DE ÁGUA FRIA - Parte 1



HISTÓRICO DO TERRENO


A terras de Beberibe, conjuntamente com as de Casa Forte e uma parte das várzeas, formando uma só e extensa data foram doadas pelo primeiro donatário de Pernambuco, Duarte Coelho, a Diogo Gonsalves, auditor da gente de guerra da Capitania, a titulo de dote, por ocasião de seu casamento com D. Isabel Frois, afilhada ou protegida da Rainha D. Catarina, mulher de D. João III, cuja senhora veio de Portugal em 1535, em companhia de D. Brites de Albuquerque, esposa de Duarte Coelho, quando ele veio fundar a colônia, com recomendações daquela Rainha para a sua acomodação, casando-a com Diogo Gonsalves e dando-lhe em dota terras de Beberibe, onde ele fundou os engenhos de Santo Antônio da Várzea, de Casa Forte e de Beberibe, para cada um de seus três filhos.


Em 1609 o terreno onde hoje estão as ruínas pertencia ao Engenho de Beberibe, também chamado Estância de Leonardo Frois, filho de D. Isabel e de Diogo Gonsalves, os primeiros proprietários.


A entrada dos holandeses, o proprietário abandonou-o militando na campanha contra os invasores, e em 1635 se recolheu ao Arraial do Bom Jesus.

Em 1637 essa terra pertencia a Antônio de Sá, quando foi confiscada pelos holandeses e vendida a Duarte Saraiva, por dez mil florins, tendo então a denominação de Eenkalchoven - Forno da Cal.


Na elevação sobre a qual e edificado o nosso Santuário, já existia uma pequena ermida, que vinha de afastadas eras e ficava ao norte da Estância de Leonardo Frois.

A ela se referiam os contemporâneos como Santo Amaro de Água Fria, para se distinguir de outra igreja, o Santo Amaro das Salinas no Recife. “Em 1630 já existia, e estando situado no âmbito estratégico do famoso Arraial do Bom Jesus, foi ele o primeiro centro das atividades guerrilheiras de Matias de Albuquerque que ai se aquartelou com seus homens”.


Em um grupo formado com "a gente que seu irmão Antônio de Albuquerque, capitão-mor da Paraíba, mandara logo em fins de fevereiro de 1630, num total de 250 homens dos quais 130 eram índios flecheiros que vieram com o padre Jesuíta Manuel de Morais, trazidos de sua abandonada aldeia do Rio Grande do Norte".


(Olinda, Salvador do Mundo)

Nestas paragens se deram suas primeiras escaramuças, deste esquisito modo de guerra. Debaixo de grandes arvores chamadas cajueiros (onde por ser no tempo de seu fruto vinham colhê-lo os inimigos).. Foi Matias de Albuquerque emboscar-se uma noite. Saindo as oito do dia 400 holandeses largaram as armas para colherem a fruta. Deram os nossos sobre eles e sem perderem tempo, os mataram 150 inimigos.


Pereira da Costa complementa o relato:

"Ao explodir da campanha restauradora de 1645, fora de novo estabelecida na localidade uma estância militar, fechando assim por esse lado a linha de defesa contra o inimigo, que destarteficava como que encurralado dentro dos limites da Praça do Recife, que ocupava. Houve repetidas investidas do Inimigo, como já havia sido repelido em 1630, quando em marcha de ataque ao nosso Arraial fora ali acometido por umas companhias de atiradores emboscados na estrada, regressando destroçado, e com a perda de quase cem homens".


Também a gente da Estância do Camarão - assim chamada por ser comandada pelo celebre índio D. Antônio Filipe Camarão, e cujo posto ficava em lugar mais arriscado, campeava nas proximidades de Santo Amaro, dando-lhes reforço.


(Pereira da Costa, Vol. II, pág. 533).

Essas duas Estâncias faziam parte de uma rede de linhas de defesa que o General Matias de Albuquerque estabeleceu para apertar o invasor holandês na Praça do Recife e interceptar a sua comunicação com o interior do País.


(Pereira da Costa, Vol. IV, Pag. 159).

Durante a invasão holandesa, cujo domínio durou: até 1654, o Brasil sofreu um tempo de declínio religioso e moral. Ebion de Lima, no seu livro relata:

"Na altura da ocupação holandesa, a população era formada por índios, negros, portugueses, holandeses e judeus.

Havia muitas tensões.

Uma parte dos índios era a favor dos portugueses, outra facção dos holandeses.

Os negros refugiavam-se nos quilombos e preferiam patrões judeus que lhes davam folga também aos sábados.

Os judeus, conhecidos por agiotas eram repudiados pelos holandeses e portugueses.

Em 1645 ha havia judeus no Recife, Chegou a haver uma solicitação de que os judeus usassem chapéu vermelho e emblema amarelo no peito para serem identificados e boicotados porque dominaram o comércio local.

Entre holandeses havia um grande fanatismo religioso contra os católicos.

De todas as formas eles procuravam amizade e a evangelização dos índios.

Os católicos portugueses tinham relutância contra a heresia e protestante e muitos missionários católicos capitaneavam soldados, pelejando e morrendo por "Deus e pela liberdade”. Eram os franciscanos, jesuítas e capuchinhos.

Após a invasão holandesa reinava o caos religioso e moral, nesta região. Era urgente empreender a restauração'.


Conta a crônica:


"Neste contexto histórico e na imediata esteira reconstrutiva de Pernambuco e que vai entrar em cena a obra dos Oratorianos. Num manuscrito existente na Torre do Tombo que contém uma biografia do Pe. Bartolomeu do Quental, fundador do Oratório de Lisboa, se diz que pelos anos de 1659 começaram a afluir ao Reino noticias das calamidades espirituais que desabaram sobre a cristandade católica de Pernambuco/decorrente do domínio calvinista.


Especialmente nos últimos quatro anos de seu governo, os invasores "por profissão hereges e por costumes piratas", diz o mencionado documento, recrudesceram em suas tiranias. E então se relatam as "desumanidades" com que os católicos eram tratados: assaltavam as casas dos civis. Depredavam-nas. E o assassínio de muitos inocentes, não raro acompanhava esta "insaciável hidropisia da cobiça holandesa".


O estupro estava na ordem do dia. Um proselitismo arrojado disseminava a doutrina herética através de livros impressos em espanhol.


A juventude era obrigada a freqüentar escolas sectárias. “Os sacerdotes eram deportados para as Índias de Castela” ou opressos a pronto de se refugiarem nos sertões "deixando as inocentes ovelhas nas garras dos lobos carnívoros". Os templos eram demolidos ou profanados. Os altares violados, as imagens incineradas e as alfaias sacrilegamente revertidas para uso da vaidade profana.


O quadro lembra bem uma típica "abominação da desolação" de bíblica memória.

“Faz recordar também as proféticas audácias de Vieira no alto do Púlpito da Bahia antevendo em termos semelhantes às desgraças que viriam ao país, caso fosse vitoriosa a invasão dos holandeses que então tentava assenhorar-se do recôncavo”.

O manuscrito passa depois a enumerar as "necessidades espirituais a acudir e que pediam urgente remédio". Ainda em 1659, ai se lê, "os templos que demoliram os holandeses estavam pela maior parte, no mesmo estado de não haver cabedais para reedificá-los; os novos cristãos, que fugindo para os sertões, deixaram a fé e retornando às trevas da idolatria perseveravam na mesma cegueira; muitos portugueses que residiam na capital viviam muito esquecidos das obrigações de cristãos, entregues a todo o gênero de vícios e sem freqüência de sacramentos. Faltavam párocos que catequizassem os índios e os trouxessem ao conhecimento do verdadeiro Deus; havia também grande falta de ministros evangélicos que pregassem nas aldeias e lugares distantes; finalmente era geral a ignorância da doutrina crista, especialmente nos meninos e gente mais rude, o que tudo cedia em grave dano da cristandade".

O clamor desta situação desesperante repercutiu no animo do grande apóstolo português, o Pe. Bartolomeu de Quental. Era ele uma das figuras proeminentes do clero lusitano daquele tempo. Natural dos Açores, tinham ido para a metrópole em 1643. Estudara filosofia em Évora e Teologia em Coimbra. Escolhido a dedo pelo rei D. João IV, exercia então o cargo de pregador da Capela real, ombreando assim com o próprio Vieira e mais dois outros para perfazer uma equipe de quatro grandes, selecionados da cumeeira oratória do tempo para servirem ao púlpito da corte de Lisboa. Responsável por parte do movimento religioso do Paço, o Pe. Quental se desdobrou em zelo notável. A atmosfera da casa real, pelo teor de documentos coevos ate certo ponto rescendia a convento. Na verdade, damas conspícuas se retiraram definitivamente para o claustro. O próprio clero da corte, a ele subalterno, se arregimentava a modo de comunidade, pois justamente em 1659 fundava com seus padres colaboradores uma congregação com o nome de Nossa Senhora da Saudade, aprovada pelo Ordinário e pela Rainha Dona Luiza de Gusmão; então regente pela menoridade de seu filho, o malogrado Afonso VI de embaraçante memória. Alias, o referido manuscrito da ênfase ao prestigio de Quental na corte, relatando uma passagem que tem a ver com este soberano. É sabido como Afonso VI teve na infância uma moléstia que o "deixou totalmente baldado do lado direito", e com juízo diminuído. Foi de tal modo indecoroso, injusto e inconveniente que em 1662, o mesmo Pe. Quental, num sermão em que contava com a presença do dito Rei, censurou publicamente os seus desmandos. Não tardou muito e o irmão, Dom Pedro, em 1667 lhe tomava, o reino, a liberdade e a mulher! Mas o ambiente da corte não impediu que o Pe. Quental se sentisse apostolicamente movido a expandir o seu ministério. As instancias provindas do Brasil o sensibilizaram e reavivaram a consciência missionária. Cogitou abandonar a corte e dedicar-se a salvação religiosa de Pernambuco. Ponderadas, porém, todas as razões, dissuadiu-se deste propósito. Parecia inconstância, sobre temeridade, deixar o caminho começado" em Lisboa.


Recorreu então a dois de seus melhores colaboradores e a eles entregou a realização do grande cometimento.


João Duarte do Sacramento e João Roiz Victória foram os escolhidos. O primeiro seria o chefe da expedição evangélica. Era credenciário da Capela Real e um dos mais fervorosos dirigidos do Pe. Quental. Muitas vezes substituí-lo na direção dos exercícios da oração mental à noite, lendo em sua ausência, os pontos para a meditação da comunidade. Era um varão, diz o citado manuscrito, "de uma capacidade não vulgar e em quem se achava um grande cabedal de virtudes, que o faziam muito aceito às pessoas reais". Tanto assim que houve de partir as escondidas, temendo que a Rainha Dona Luiza de Gusmões que o apreciava muitíssimo, se decidisse a obstar-lhe os planos de deixar a corte pelas missões.


Nenhum dos dois candidatos era ainda sacerdote. Por conselho de Quental receberam as ordens e embarcaram para a ilha de são Miguel, Açores, "onde por alguns meses se detiveram, preparando-se com oração, jejuns e penitência para celebrar a sua primeira missa, como, com efeito, celebraram na noite de Natal". Era no ano de 1659.

Durante o tempo que se demoraram nos Açores, residiram num Recolhimento que se intitulava, pelo lugar Onde se localiza: "Congregação do Val das Cabaças", a qual ainda no século XVIII era conhecida como uma comunidade de sacerdotes de rígida penitencia e clausura.


Ai conseguiram angariar mais dois outros sacerdotes voluntários, um deles de nome Domingos do Rosário, e com ele zarparam para Pernambuco no fim daquele mesmo ano, ou mais provavelmente em princípios de 1660.


Uma vez na Capitania, estabeleceram-se inicialmente a oito léguas para o sul do Recife, Levaram às costas as poucas roupas que tinham mais os paramentos e acessórios litúrgicos para dizer as suas missas.


Ai padeceram com harmonia de alma e esperanças apostólicas as necessidades e desconfortos que seus ideais os tinham preparado para suportar: a falta de agasalho e alforje. Comiam beldroegas cozidas com água e sal.


De lá se foram para o campo precípuo de seu ministério, as missões na ribeira do São Francisco a mais de cem léguas de distância. Depois de um intenso trabalho missionário se viram prostrados pela maleita e houveram de regressar a Recife para se tratarem devidamente.


Uma vez restituída à saúde, rum aram para o norte, igualmente cerca de cem léguas de distância, levando o evangelho aos Janduis, cuja ferocidade era proverbial entre os Tapuais e cujo doutrinamento implicava risco de vida. Adoeceram novamente naqueles sertões e houveram de retornar a Pernambuco. Curados de novo, se dispersaram pelo vasto campo missionário nas imediações do Recife, substituindo aqueles apóstolos que as guerras holandesas tinham eliminado para dar lugar à sementeira calvinista. Agregavam a si outros missionários que lhes ajudavam na administração das aldeias todos leigos, já que não havia na terra Bispos que os pudesse ordenar.

"Neste exercício passaram os padres alguns anos sem terem casa nem domicilio, dormindo nos ranchos dos Tapuais ou no mato debaixo de algumas árvores que nem igrejas havia".


Realmente, por mais de dois anos vinham exercendo aquele apostolado nômade com frutos certos, mas de duração incerta. A experiência e o bom senso lhes estavam ditando a necessidade de organizar melhor o seu trabalho para maior eficiência e estabilidade da obra num ambiente atravancado de rudeza, perigos e privações.


Texto elaborado por: Irmã Renate Miriam Dekker

Foto: Taciana Ferreira

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